Sáb, 21 de Agosto de 2010 00:14 | Author: Charles Zimmermann | E-mail
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Noticias do Pedal 13 (Cáucaso)
- Onde estou: Tbilisi na Geórgia - Quilômetros pedalados: 12.600
Trilha sonora: - AC/DC: Highway to Hell; - Deep Purple: Woman from Tokyo; - Engenheiros do Hawaii: Infinita Highway;
Muitíssimo obrigado aos muitos que escreveram pedindo sobre as novidades devido a esse longo período sem um relato. Nesse período pedalei do Cairo no Egito ao sul da Turquia. Somando aproximadamente 1100 km (aproximadamente porque o ciclocomputador parou de funcionar). Dentro de alguns dias, do sul da Turquia tomarei direção a Europa, entrando pela Bulgária. O relato dessa experiência pelo Oriente Médio será comentado na próxima oportunidade. Como a parada no sul da Turquia, até necessária devido ao período do Ramada - tempo em que a região quase para e tudo a beira da estrada fecha; tomei um ônibus em direção a dois lugares interessantíssimos e raros comentados: Armênia e Geórgia de onde escrevo este relato.
A Armênia e a Geórgia ficam num enclave que fez parte das antigas Rotas da Sedas. Seus vizinhos são gigantes (Rússia, Turquia e Irã) e assim como esses dois pequenos são totalmente diferentes um do outro. Aqui também dois continentes se encontram entre dois mares de águas praticamente não salgadas, o Mar Negro e Mar Cáspio. A região é chamada de Cáucaso - nome das montanhas que formam a fronteira com Rússia, e que no lado russo constitui a Chechenia (na foto ao lado a próxima cidade e russa). O Cáucaso tem suas belezas com montanhas (na Geórgia) e canions (na Armênia), mas o que me trouxe aqui foi o fato de tentar notar como é o cotidiano nesses países únicos que fizeram parte da Ex-URSS.
O colapso russo tem marcas explícitas nesses países. Barracões de fábricas abandonadas fazem parte da paisagem. Carcaças de carros, caminhões, ônibus também. A herança dos russos esta nas tubulações de gás que passam na frente das casas junto com as fiações elétricas, nos Ladas sedans - todos de mesma cor que formam quase toda a frota de carros e nos bêbados. O hábito alcoólico e visível nas tardes quando os homens formam longas filas na frente das cervejarias munidos de galões de cinco ou dez litros. Muitos se embebedam por ali mesmo. A popularidade da cerveja aumenta quando pipas circulam pela cidade vendendo cerveja como se abastecessem casas com água (exemplo foto 5426).
Nesses países, me hospedando em residências familiares que dispõe de quartos para turistas, nota-se a teoria do faça você mesmo. Na garagem um arsenal de pecas e ferramentas para reparar o carro. O cimento, os poucos tijolos, o galão de tinta, mostram que a casa antiga com visíveis rachaduras esta em constante reparo.
Nunca me senti tão perdido num lugar quanto a não falar a língua local e muito menos o russo (a língua que todos entendem). Falar inglês aqui e algo exótico, como se alguém quisesse viajar pelo Brasil falando tailandês. Dentro das capitais desses países Tbilisi na Geórgia e Yeravan na Armênia alguns jovens falam inglês, mas são raras as oportunidades em encontrá-los (quase todos já se mandaram do país na busca de oportunidades). Todas as placas somente com caracteres da língua local. Chegar em algum ponto consiste em deduzir e memorizar referências. As vezes, podia até dizer que andava de olhos vendados. Quando tentava pedir informação as pessoas despistavam ou saiam de próximo a mim em passos largos - me sentia um mendigo pedindo esmolas. Em Yeravan por exemplo, nos arredores, as ruas não tem nome e sim somente os prédios - todos iguais e sem pintura, tem números.
As pessoas desses países não sorriem. Elas não possuem motivos para sorrir. Principalmente na Geórgia onde famílias vivem nas ruas e a luta por comida naquele dia é árdua. Viajando pelo mundo se acostuma com o pensar racista de ver pessoas em tons de pele mais escura pedindo trocados ou vivendo em acampamentos com lonas. Numa sociedade quase que totalmente branca, como essa, aqui são os olhos azuis que pedem esmola. Curiosas são as muitas habitações humildes espalhadas pelo interior desses países: tanques muito similares aos dos caminhões que transportam combustível se transformam em residências (exemplo na foto 5437)
Guerras internas por causa das divisões étnicas marcam a Geórgia e continuarão a marcar. São tantas as diferenças étnicas que existe na Geórgia famílias que falam seu próprio dialeto. Já na Armênia é visível a sobrevivência com a agricultura de subsistência. A capital Yeravan vive com o dinheiro recebido dos familiares de todos os níveis sociais que estão mundo afora. Guerras longas com o vizinho Azerbaijão e ainda um recente terremoto faz da Armênia um país que em 2005 tinha 3,5 milhões e agora dizem ter 2 milhões. Quase um país de aposentados. Existe na Armênia o hábito de falar mal dos turcos, devido ao genocídio ocorrido em 1915. A Armênia é o representante russo na região - aliança histórica que levou ao genocídio de 1 milhão de armênios. A Geórgia é o representante dos Estados Unidos na região. Por isso, sempre a intervenção russa nos conflitos étnicos georgianos.
Religião para esses povos é quase que um motivo para viver. Tem-se a impressão que todos estão sempre fazendo o sinal da cruz. Com uma igreja a cada 200 metros e eles fazendo três vezes o sinal da cruz a cada vez que passam em frente a elas, então imaginemos.