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Fácil é entender a estratégia de quem segue no trânsito da capital de Bangladesh, Daca. Seja num velho sedan Fiat ou Lada, num decadente ônibus inglês de dois andares, ou numa motoneta chinesa de marca japonesa falsificada: basta seguir em frente colocando a mão na buzina. Das bicicletas triciclo que começam cedo, carregando fardos de tecido, fardos de feno, sacas de cimento, galinhas vivas e tijolos, e terminam tarde da noite carregando passageiros, desde algum homem sisudo de costas ereta, pertencente a uma alta casta, a senhoras que deixarão somente um olho a aparecer – de corpo coberto de acordo com as regras islâmicas, em meio ao buzinaço, vez ou outra conseguia ouvir um sininho contínuo e um grito grave, emitido pelo condutor. Geralmente descalços, às vezes calçando sandálias de plástico, sujos e raquíticos, esses condutores não chegam a se sentar ao selim, devido à força que têm que colocar nos pedais. Lembro de ter visto um, num carregamento com cerca de 30 enormes cachos de banana, amarrados de tal maneira que cobriam a capota dobrável e partes das rodas traseiras. Alguns parecem pouco aptos à tarefa; gemem e se contorcem sobre o guidão como se aquela fosse a última força que podem proporcionar. Esses triciclos são o símbolo de Daca e também a maioria absoluta no trânsito. De pára-lamas e guidão decorados com rosas e girassóis de plástico e recortes de papel alumínio, nas capotas, pinturas coloridas iguais aos cartazes de filmes indianos – uma mocinha de rosto angelical, um galã boa pinta e um vilão à flor da pele, mostrando seus dentes de ouro.

Para mim, atravessar alguma via, consistia em aguardar ou procurar um grupo de pedestres ao qual me juntar, desencorajando, pelo menos um pouco, algum atrope-lamento por parte de um ônibus. Nos cruzamentos, nada de sinal, nada de preferencial. Todos avançavam de acordo com seu impulso. Era até difícil descobrir que direção determinado veículo, já parado no meio do cruzamento, queria seguir. Perdido no meio daquela poeira escura, um policial com máscara cirúrgica. Não sei o que fazia lá meio da via, com seus braços estendidos.

Cheguei em Daca numa madrugada. Vindo de Bangcoc num vôo da companhia aérea do país – Bangladesh Airways, a caminho de Kathmandu, no Nepal. O vôo estava praticamente vazio, portanto poltronas para dormir não faltaram. Ainda mais que algumas, quebradas, assumiam imediatamente a posição reclinada de quase uma cama. O atraso da partida foi impaciente. Nos painéis do aeroporto de Bangcoc, que não paravam de virar com vôos para os mais diferentes destinos, somente o vôo para Bangladesh em atraso – mais tarde, nem portão de embarque sequer apresentava. O aeroporto de Daca nada tinha a ver com o de Bangcoc, este novo e moderno. Parecia que eu deixara um aeroporto para tomar a rodoviária de uma cidade abandonada que já tivera seu apogeu décadas atrás. De paredes rachadas, escuro e soturno, no balcão da imigração um oficial carrancudo num terno alvíssimo rodeado por mais três companheiros que aparentavam ser seus assessores. Na tentativa de formar uma fila para a imigração, um policial com uma vareta nas mãos. Cutucava as costas de cada um. Fila é algo sem sentido para esse povo, inimaginável. O policial controlava a fila igual a um boiadeiro a sua manada. De vez em quando escapava alguém, que não sei para onde queria ir. Buscava-o, reconduzindo-o para a fila com a vareta colada nos braços do escapista, que de vez em quando só retornava pelo poder de uma chibatada. Nessa sala havia inúmeros relógios espalhados pelas paredes. Cada um indicava tempos diferentes; as diferenças de um para outro alcançavam quarenta minutos – tanto para mais como para menos. Perguntei ao policial qual era o relógio que mostrava a hora certa. Ele pensou por alguns instantes, coçou seu bigode que terminava em finas espirais e depois de olhar para as paredes, respondeu: “Quase todos estão no horário”.                

O cavalheiro carrancudo da imigração me reteve. Eu não tinha o visto exigido no meu passaporte. Sua embaixada em Bangcoc, por ser uma estada de até dez dias, disse que adquiriria esse visto na chegada ao país. Não tinha como me mandar de volta, porque o avião que me trouxera tinha decolado logo em seguida. Éramos dois com problemas – eu e um nepalês, com o mesmo dilema que o meu. Ele,  muçulmano, estudante na Malásia e a caminho de casa, visitaria um amigo. Os policiais ficaram discutindo entre si a respeito do que fazer conosco. Ao mesmo tempo, os quatro, num sincronismo igual a uma peça de teatro de formas animadas, balançavam a cabeça de um lado para o outro, idêntico ao gesto indiano – como o de alguém que tenta sacudir água das orelhas – que significa ouvir com aprovação o comentário alheio. Quem não está habituado, não há como não achar graça, ou tecer comentários sobre esse gesto, comum entre os indianos.

Por fim, fomos liberados depois de uns vinte minutos, carregando cada um uma papelada suficiente para colocar num envelope. Eu – o nepalês não – teria que ficar num hotel próximo ao aeroporto, indicado por eles. “Não se preocupe com o valor da hospedagem”, afirmava o chefe do balcão. “Mas não tenho dinheiro para ficar num hotel, somente numa hospedagem barata no centro da cidade”, não se preocupe, reiterava o chefe. Sempre com a postura de autoridade, enquanto ele fala, os outros abaixam a cabeça ou balançam a cabeça.

Na porta do aeroporto, soldados com enormes espingardas inglesas dos tempos da colonização. As partes em madeira estavam quebradas ou rachadas. Fora do aeroporto, atrás de uma grade, uma multidão. A maioria era de jovens que, para ter uma melhor visão da porta, escalavam barras de ferro, ou se empoleiravam em arbustos mirrados e retorcidos. Me sentia um tigre numa jaula. Os olhares daquele povo do outro lado das grades fiscalizavam cada movimento meu. O que faziam ali naquelas horas da noite?, eu me perguntava. Nenhum vôo ainda chegaria naquela noite, queriam fugir do país?, queriam invadir o aeroporto? Na verdade, esse era o cartão de boas-vindas por estar de volta às Índias. Lembre-se que até 1947, quando se deu a independência da Índia; Paquistão, Bangladesh e Índia eram uma só nação. Gente, muita gente que aparecia de todos os lados e de todos as maneiras. Como num filme de ficção, parece que saem até dos buracos. E nas Índias, sei que até isso pode ser possível. De maioria muçulmana, em 1971, após uma guerra contra tropas paquistanesas, Bangladesh se tornou independente desse país, que até então se chamava Paquistão Oriental.  

Um microônibus me levaria a um hotel, junto a um grupo de tailandeses que eram homens de negócio. O motor não dava partida. Foi necessário o empenho dos soldados em empurrá-lo. Foi rodar três quadras que o velho ônibus pifou. Para o motorista, que não falava inglês e tentava dizer algo que não era compreendido, parecia da maior naturalidade o que estava acontecendo. Ele descia, dava uma volta ou redor do veículo, batia nos pneus e na lataria, e voltava a bater na ignição. Nada de sinal. Realizou esse ritual por umas quinze vezes seguidas. Os tailandeses estavam com medo. Naquela avenida imersa no escuro de uma noite abafada, vultos montados em triciclos carregados com juta logo apareceram de qualquer direção. Uns abandonavam o triciclo no meio da pista oposta. Um homem deixou cair a motocicleta e correu para ver o que estava acontecendo. Dois outros aproveitaram o momento para urinar no canteiro central. Mas não olhavam para outro lugar senão para nós. Em questão de poucos minutos, formou-se uma concentração que se acotovelava ao redor do microônibus para nos observar. Não sei de onde surgiram tantos curiosos. Até de cima de uma cerca lateral pescoços se estendiam. Nada naquela avenida indicava alguma movimentação expressiva. Estavam ali, fitando com olhar perdido, estagnados. Sem fazer algum comentário para quem está ao lado. Ninguém colaboraria com alguma coisa, muito menos faria algum mal.

De repente, numa tentativa já sem esperanças, o motor tremeu, tossiu e pegou, depois de quase uma hora parado. Em movimento, o motorista logo começou a buzinar desesperadamente, mas nada estava a circular pelas ruas. O que avistava, e que de vez enquanto sua margem se aproximava da avenida, era um rio de águas claras. Sua extremidade normalmente desaparecia na escuridão. O suposto rio era formado pelo povo que dormia ao relento. Totalmente coberto, dos pés a cabeça, por um fino pano, eram embrulhos de diferentes tamanhos, denunciando que famílias inteiras ali estavam. Somente corpos, nada de panelas, frascos, pacotes ou algo a mais que distinguisse uns dos outros. Alguns jaziam diretamente no chão batido, outros sobre tábuas. Imaginava que a estridente buzina que não parava de soar e fazia o trajeto até o hotel não ter fim, incomodaria aquele povo. Ninguém se moveu. Nenhum sinal de vida.
 
Na recepção do hotel, o motorista murmura algo que poderia ser boa-noite, vira as costas, desaparecendo no escuro com os tailandeses. Uma lâmpada pendurada no centro do quarto iluminava-o fracamente. Quando fechei a porta, notei que não havia maçaneta e a chave estava quebrada dentro da fechadura. Utilizei um arame, atravessando o buraco da fechadura e ligando-o a um prego dobrado na parede. A cama era confortável e a televisão trazia canais europeus de jornalismo. O ar condicionado roncou e trepidou a noite inteira. Amenizou o calor úmido, mas não impediu que na manhã seguinte eu acordasse com mosquitos fazendo minúsculos redemoinhos sobre mim.

O café da manhã era servido às sete. Quando abro a porta, dois rapazes dormiam no chão do corredor de braços cruzados sobre a cabeça, sem qualquer roupa da cama. Ali deveria ser seu sono de todos as noites. Trabalhavam no hotel como arrumadores. Com o passar dos dias, notava no seu comportamento tanto acanhamento quanto submissão - era como se pedissem desculpas pelo fato de aparecerem na minha frente. No café, acompanhado de uma marzipã, sobre uma folha de bananeira serviam-me arroz cozido e mishti, um espesso iogurte adocicado, comum também na região de Calcutá, na Índia, de sabor raro.Como estão habituados a comer com as mãos, o arroz misturado ao iogurte, a solicitação de uma colher, chegava a mim como um pedido especial. “Aqui está seu pedido doctor”. Afinal, “doctor” era o meu nome em Bangladesh. Mostrava que, assim como a Índia, este país também respira sistemas de castas. Os preceitos tribais possuem até mais importância que a infindável quantidade de subcastas - como na Índia. O simples fato de possuir tez clara me colocava num status mais alto – uma raça superior, de poder ser chamado de “doctor” – a maneira como os homens de terno ordenavam ser chamados.
 
Se algum cidadão está de calças cáqui largas e camisa social, ele pertence a uma raça superior, pode mandar. Um desses dava ordens a seus subordinados aos gritos na recepção do hotel e ai de quem duvidasse com uma palavra, um gesto, um olhar. Perguntei a ele o valor da minha estada. “Não pagarás nada, não. Já está paga para os dias em que ficares aqui”, responde, coçando os cabelos – uma juba vermelha que disse ser tingida com henna. “Como, se vocês nem sabe quantos dias estarei em Daca? Ou se hoje vou migrar para outro lugar?”, retruco. “Você tem cinco diárias pagas”, responde enquanto seus olhos graúdos cresciam ainda mais no seu rosto.

De bigode escova, sua postura burocrática fazia parecer que eu falava com algum político do governo. Cinco dias é exatamente o tempo que disse ao oficial do aeroporto que ficaria no seu país. Deixei o balcão calado. Feliz e curioso, óbvio. Por que minha estadia estava paga? Certamente eu nunca teria essa resposta. Se continuar a perguntar; como?, por quê?, ele iria acabar por cobrar esse valor, pensei. Aquela sua postura de capataz transmitiu-me que fosse um homem oportunista.     

 E as ruelas da antiga Daca! Conhecidas aqui como travessas, consistem numa visão profundamente desagradável. Poeira, calor infernal e um odor sufocante de fermentação. Aqui os homens não usam as calças largas e os paletós: estão de camiseta sem manga, iguais às de ginástica, e de sarongue, que chamam de lungui. Se calçados, usarão sandálias plásticas iguais às melissas. Cobertas com um véu escuro, não eram muitas as mulheres que via circular por esses labirintos, onde muitas das habitações eram constituídas de caixas de papelão e de latas de óleo cortadas. Via-as de cócoras dentro das casas; escondiam o rosto, se não com o véu, com os braços, a fazer montinhos com as fezes frescas dos búfalos ou a catar piolhos dos cabelos de um outro também de cócoras, a sua frente. Em tablados de madeira erguidos a poucos centímetros do chão enlameado, as cabras eram abatidas e sua carne vendida. Ao redor desses tablados, pequenos córregos, onde o sangue percorria alguns metros até se juntar ao esgoto repleto de excrementos. Sentado sobre o sangue ainda úmido, numa mão o vendedor segurava a xícara com café, noutra um pedaço de tecido que usava para afugentar as moscas que camuflavam a carne cobrindo-a de negro, de tantas que havia. Nos tetos de zinco, os corvos saltitavam ensandecidos, na expectativa de comer algo além dos excrementos.          

Os bengaleses, nome dado ao povo de Bangladesh – devido ao golfo que banha esse país, o Golfo de Bengala – possuem tez parda, cabelos lisos e espessos e, em geral, são magros. Uns passavam por mim num olhar de espanto, outros de curiosidade, mas a grande maioria queria arranjar um jeito de se aproximar. Queriam me ter numa roda de chá, servido em descartáveis xicrinhas de barro, ou tentar ensinar-me pelo menos uma palavra em bengáli, ou simplesmente estarem próximos, encontrando algum motivo para me entreter, fazendo-me parar; queriam fazer notar aos olhos de outras pessoas que conhecem e estão ao lado de alguém mais importante que eles, importância essa definida pelo simples fato de eu ter tom de pele clara. Passavam os dedos sobre meus braços. Queriam tocar na minha pele. Era como se recebessem alguma bênção.  

Impressionei-me como cuspiam, urinavam e defecavam com tanta vivacidade. Parecia que eu estava numa aldeia isolada no meio da selva da Indonésia, e não no meio de uma metrópole de quase 15 milhões de pessoas. Não se incomodavam com o espaço, se havia fluxo intenso de pessoas ou não. Um grupo de seis homens estava agachado numa parada.  No começo pensei que estavam à espera do ônibus, mas depois percebi os espirais verde-abacate e amarelo-ouro embaixo deles. Dois deles, empoleirados a uma altura de um metro, de vez enquanto davam uma observada na sujeira que faziam no caminho de tantas pessoas, sem pressa. Enquanto nesse momento de alegria, soltavam gargalhadas coletivas, os dentes que restavam de suas bocas mostravam certa brancura. O motivo: um pedaço de madeira verde de uns 15 centímetros que mastigavam, como se tentassem extirpar um galho preso em sua goela.

A liberdade de um menino em defecar foi curiosa. Estava sujo, de barriga bojuda e olhos pequeninos e brilhantes. Seu rosto lembrava algum roedor. No minúsculo bar próximo ao hotel, comprei para ele umas bolachas. Dizia que estava com fome. Como se fosse um ritual de agradecimento, assim que as devorou, a menos de um metro diante de mim, deu as costas. Se agachou e começou a fazer um monte de excrementos entre as duas únicas mesinhas do local, ocupadas por senhores que matraqueavam entre si. Nessa hora até pensei que o menino possuía algum distúrbio mental, mas a atitude daqueles senhores de somente passar o olho na situação, sem interromper os serenos goles de café, mostravam que tudo lhes era familiar. Trataram aquela cena com a indiferença de se vissem alguém deixar cair um talher. Enquanto sorvia um suco de manga, notava duas coisas. A primeira, o cartaz na parede do bar, em letras garrafais, de uma campanha sanitária: Fim dos ratos! Fim das baratas!, proporcionando um certo ar de humor negro. Segundo, que este, a minha frente, seria somente mais um monte ao meu redor – a maioria já estava espalhado por pisadas.

Até dias antes de chegar a Bangladesh, tinha planos de rodar pelo interior, mas fui surpreendido pelas cheias que afetavam o país. As anuais chuvas diluvianas das monções vieram atrasadas, e dois terços do país estavam sob a água. Enquanto em Daca, cidade que resumiu minha estada, via na televisão que naqueles dias havia 20 milhões de desabrigados e quase 900 já haviam perdido a vida. A cidade estava literalmente ilhada. Sem ligação com o resto do país.

A grande maioria dos bengaleses vive amontoada sobre o delta do Rio Ganges, onde suas águas sagradas juntam-se às de outro rio, o Bramaputra. O primeiro vem no sentido Índia – oeste  –  e o segundo,  no sentido China  – nordeste. Ambos se formam a partir do degelo das montanhas do Himalaia. Com o aquecimento global, as expectativas para o futuro não são nada animadoras para o povo de Bangladesh, que sempre foi referência quando se fala em miséria no mundo. Aqui, 65% dos homens e 80% das mulheres são analfabetos. A mortalidade infantil é de 120 por 1.000 nascimentos. Os moradores da parte antiga da cidade, sempre repletos de hipérboles nas suas palavras, já me diziam: “Se um bode fazer xixi lá no Everest, começam as enchentes em Bangladesh”.

Sentado de forma razoavelmente confortável numa bicicleta triciclo de um homem magérrimo, aos farrapos, desdentado, que a cada pedalada gemia e suava num mormaço exagerado pelo ar pesado e, com isso, passava um filme de tantas desgraças humanas que teria visto em apenas cinco dias em Bangladesh. Me sentia culpado por tudo e por todos, até por este cidadão a minha frente. Na disputa dessa corrida, que me levava ao aeroporto, esses homens brigaram entre si. Aos gritos, imploravam e me cercavam, jogando seus triciclos sobre mim. Acuado, passei a gritar e a repreendê-los. Assustados, não tinham a capacidade para compreender minha inesperada atitude. Eles contavam comigo; afinal, naquele dia eu era a única oportunidade de receber alguns trocados e a única esperança de conseguirem uma porção de lentilha.  

No portão de embarque, debaixo da bandeira nacional, lembrando a do Japão – bastava trocar o fundo branco por um fundo verde. O círculo central é igual, do mesmo tamanho e também vermelho – dou uma retribuição extra ao cobrado pelo ciclista: trinta centavos de dólar por pedalar quase uma hora. Em segundos, fui cercado por um verdadeiro cabo-de-guerra de rapazes a suplicar, todos empenhados em carregar minha mochila.

Assim que levantamos vôo, dei-me conta do dilúvio em que o país estava mergulhado. Por mais de uma hora, o panorama que se avistava da janelinha era o mesmo. Rios transbordados se espalharam: formaram autênticos lagos sobre plantações, ilhas com as árvores remanescentes e mares de águas barrentas. Ás margens dessas porções de água notava que eram tomadas por concentrações: multidões de refugiados. Quase chorei. Meus olhos marearam de verdade.