Nos Confins do Oriente: Paquistão

Eu sai um pouco da rota original para conhecer um pouco das montanhas do Baltistão, a região em conflito com a Índia. A área de conflito é conhecida mundo afora como Caxemira. Envolve a província indiana de mesmo nome e a província do Baltistão, no Paquistão.
A viagem até a principal cidade do Baltistão, Skardu, foi de quatro horas em uma apertada van, onde num banco (para três) colocam cinco pessoas. Na parte superior, em meio as mochilas, cabras nos acompanhavam. Se a estrada de Rawalpindi até Gilgit já foi de amedrontar, essa daqui era ainda mais estreita e na maior parte do trajeto só passava um veículo, por vez à beira de penhascos. Eu fazia figa em cada curva para não encontrarmos outros veículos, porque penhasco abaixo havia fortes corredeiras. As dezenas de pontes são em madeira e suspensas. Cada travessia, a não mais que 20 km/h, era acompanhada por rangidos de todos os cantos e placas advertindo para não fotografar as pontes.
Skardu é uma pequena cidade a 2.400 metros do nível do mar e a 40 quilômetros da fronteira com a Índia. A todo o momento aviões Mirrage, das forças armadas, davam rasantes pelo vale. Para três das cinco montanhas que o Paquistão possui, com mais de 8.000 metros, o acesso começa por Skardu, entre eles o da K2, a segunda montanha mais alta do mundo, com 8.611 metros. Em 2004 foram celebrados os 50 anos da conquista do topo por um italiano.
Na mesma hospedagem que fiquei, estavam diversos comerciantes paquistaneses hospedados. Surgiram muitas perguntas a respeito do Brasil, inclusive perguntaram quantas montanhas o Brasil tinha acima de 8.000 metros. Controlando a recepção e sendo também o cozinheiro, Marghazar, de 22 anos, tinha cara de tibetano, sempre preparando comidas apimentadas e oleosas à base de frango e arroz. Enquanto Marghatar preparava um jantar, um dos comerciantes comentou: “Marghatar foi contratado para atender os serviços domésticos, ou seja, fazer o que uma mulher faz, ele não é homem”. Compreendi aí que Marghatar é um eunuco. Relatórios dos Direitos Humanos da Anistia Internacional apontam que no Paquistão existe tráfico de meninos eunucos para trabalhar com as famílias de maior poder aquisitivo. (...)



