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Depois de ter problemas para embarcar no aeroporto de Mumbai (como verão mais adiante no capítulo Índia), fiz a conexão Mumbai - Frankfurt - São Paulo e, ao final de nove meses de viagem pelo Oriente, fiquei feliz em ter contato com vários brasileiros no avião. Cheguei a São Paulo alguns quilos mais magro, cabeça raspada e muitas imagens cristalizadas na cabeça. E a idéia de escrever um livro, surgida quando percorria a China, estava cada vez mais presente. Por que não? Eu tinha todos os ingredientes. Havia percorrido diversos países utilizando meios de transportes rodoviários e ferroviários com menos de quinze dólares por dia e, principalmente, fotografei o cotidiano de muitos povos e procurei me misturar às culturas locais: observar e aprender. Essa viagem não foi uma aventura no sentido restrito da palavra, pois o número de meses que passei planejando a viagem excedeu sua execução. Foram doze meses de pesquisas, definições de rotas e estudos das culturas locais. Já havia feito viagens pela Europa e pela América, mas sempre por períodos curtos, de no máximo 30 dias, ou seja, nas minhas férias, e sempre ficava com um gostinho de quero mais, fator que impulsionou meu desejo de uma jornada mais longa. O Ocidente, predominantemente judaico-cristão, passou a me desinteressar, procurava algo mais, um choque cultural, que quebrasse alguns paradigmas e principalmente estereótipos, em minha programação cultural. Vendi meu carro e com parte desse dinheiro, cerca de dez mil dólares, parti para o Oriente.

Não tenho a pretensão de ser um romancista aventureiro, como Jack London ou mesmo Ernest Hemingway; tampouco faço neste livro análises psicológicas densas ou estudos mercadológicos de cada país, me atenho às impressões colhidas pelos caminhos que trilhei, sendo cada capítulo um conjunto de fotos transmutadas em palavras. Alguns são mais intimistas, já que em alguns países eu estava mais impressionável, mergulhado num admirável mundo novo. E o leitor acompanha essa mutação através dos capítulos: os interesses mudam, a narrativa procura outros caminhos, outras sensações. Participando de tudo isso, você torna-se meu companheiro de viagem, de impressões.

Saí do Brasil no dia 20 de março de 2004 com a certeza de que, quando retornasse, já seria outro homem, não pelo viés do misticismo, como o personagem Larry, do romance O Fio da Navalha de Somerset Maugham (que abandona a burguesia em que vivia indo para o Oriente e retorna um místico inveterado), mas pelo principal fator de mudança do animal-homem, a experiência. Os nove meses de viagem, geralmente necessários na gestação de uma criança, fizeram com que nascesse um novo Charles, mais suscetível a respeitar diferentes culturas e formas de expressão, principalmente por não ter ficado enclausurado em hotéis e rotas turísticas, mas viver como os nativos, tentar pensar como eles, comer o que eles comem, beber o que eles bebem, tentar sentir a pulsação de um povo. Quero ainda alertar o leitor de um fato importante, algumas passagens do livro expõem algumas situações deploráveis de determinados países, mas, se um indiano ou um chinês viesse se meter nos confins do Brasil, também encontraria cenas de miséria e caos.

Para chegar a Turquia, país que escolhi como porta do Oriente, voei de São Paulo a Frankfurt, na Alemanha, onde passei somente três dias, sendo acolhido por uma casal de amigos brasileiros na região de Colônia, duas horas de trem de Frankfurt. Lá realizei os preparativos finais, antes da jornada pela Ásia. Dediquei esses dias à procura dos últimos livros e guias necessários.

No dia 27 de março madrugo e pego um vôo para Atenas, que parecia uma cidade bombardeada devido às preparações para as Olimpíadas de 2004. Passei duas semanas na Grécia, praticamente em casa com a receptividade do povo grego. Participei de algumas festas regadas a oúzo, uma aguardente transparente, produzida de cascas de uva, com aroma de anis e 48% de álcool. De barco chego às ilhas, primeiro Santorini, depois Paros, ponto estratégico nas conexões do mar grego, e por fim chego a Samos, de onde embarco para a Turquia.

Espero que o leitor aprecie minhas narrativas, em alguns momentos divertidas, em outros, tensas, em alguns, didáticas, mas principalmente, verdadeiras.