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(...) Na beira do rio Ganges está Varanasi, aonde chego após 15 horas de viagem. As hospedagens baratas estão próximas ao rio e nenhum lugar seria mais indicado, pois é no rio que tudo acontece. Através de indicação de outros viajantes e com a ajuda de um motorista de riquixá,(motocicleta leve, de três rodas: o táxi popular da índia) sigo por estreitos e sinistros labirintos até uma hospedagem. Se não fossem os caras da hospedagem me guiarem nas primeiras vezes, nunca acharia o retorno. Além de todas as casas serem iguais, pequenas e grudadas uma na outra, eu tinha que me aventurar por entre as vacas atravessadas no caminho, que nunca era de mais de três metros de largura. Para completar o cenário, uma fumaça preta saía pelas portas das casas. Eu andava pelas ruelas ofegante, com os olhos ardendo, enquanto dentro das casas todos sentados na maior paz, entre nuvens de fumaça. Essa fumaça provém da queima de excrementos secos dos búfalos ou vacas. Logo que os animais defecam, sendo melhor para manusear, juntam seus excrementos com as próprias mãos e formam discos grudados nas paredes da casa, deixando para secar. Algumas casas pareciam recentemente rebocadas, e na verdade foram, mas de bosta de vaca. Além de ser usado como combustível para acender o fogo, usam como repelente de mosquitos. Na Índia, mais de que em qualquer outro lugar, a lei de Lavoisier é consumada: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, num ciclo contínuo e eterno.

Do terraço, eu tinha uma boa visão da cidade contornando a margem do rio. Como chove pouco na região, as casas são cobertas apenas por uma laje. Nos terraços, o passatempo preferido dos nativos é ficar chamando bandos de pombos que se movimentam através de assobios, mas o que mais se vê e ouve são as fanfarras das celebrações fúnebres, passando pelas ruelas em direção à beira do rio, onde o corpo é cremado.

Arvind, sujeito simpático e um dos donos da hospedagem, faz questão de acompanhar minhas andanças. Como a cidade é movida à religião, ao lado de um nativo hindu as portas se abrem. Assim como Varanasi, há outras cidades consideradas sagradas para o povo hindu, em toda a Índia, mas Varanasi é especial para eles, é a que mais concentra peregrinos. Os fiéis acreditam que morrer em Varanasi e ter suas cinzas atiradas no Ganges é uma garantia de melhor reencarnação. Muitas famílias vêm de outras partes do país trazendo as cinzas de seus entes queridos, para serem atiradas no rio.

Na beira do Ganges, o rio sagrado que nasce no Himalaia, estão os ghats. Os ghats são os crematórios de propriedade dos marajás de Varanasi. Somam mais de 100, são próximos, e alcançados facilmente a pé. Cada ghat é direcionado de acordo com a casta e os deuses de devoção da pessoa. Por preferência ou caso a família não tenha no mínimo 2.500 rúpias, ou 65 dólares (uma fortuna para os padrões do país, onde 70% da população vive com menos de um dólar por dia), as pessoas são cremadas em fogueiras a céu aberto, à beira do rio.

As fogueiras na beira do rio são acesas 24 horas por dia. A fogueira é feita no momento que o corpo chega, envolto em um manto colorido. Quem acende a fogueira e arremessa as cinzas ao rio é sempre o homem da família, seja o pai, o marido ou o filho mais velho. A quantidade de madeira para a fogueira também é limitada pelo dinheiro disponível. Dessa maneira, acabam atirando ao rio partes ainda identificáveis, como braços ou pernas. Uma prática proibida, mas ainda hoje pouco realizada, é a cremação da mulher, viva, quando o marido morre.

As primeiras cenas me chocaram. Quando vi diversas fogueiras lado a lado em chão batido, exalando o cheiro de carne queimada, cães, cabras, corvos, todos disputando resíduos dos corpos e ainda crianças jogando críquete (o esporte preferido dos indianos) próximo às fogueiras, refleti sobre quanto são diferentes, na Índia, os valores. Mais tarde eu já estava no clima, tomando chá com leite, com os amigos de Arvind, observando "de camarote" a movimentação dos corpos. Em meio a todas aquelas piras funerárias, pessoas de todas as idades se banhavam no rio com sabonetes de sândalo, num ritual de purificação. Crianças menores são induzidas pelos pais a dar três mergulhos, o mínimo que um hindu faz no rio. Homens lavadores lavam roupas com uma incrível velocidade, batendo-as em pedras e enxaguando-as no rio, aonde as pessoas tomam banho, escovam os dentes, tomam goles sagrados de água e jogam as cinzas de seus entes e, ainda, enormes dutos despejavam os esgotos da cidade. Recentemente, em amostras de 100ml de água do rio foram encontrados 1,5 milhão de coliformes fecais, sendo que o aceitável é menos de 500 para 100ml. (...)

(...) O maior choque de Varanasi estava por vir. O dia ainda não estava totalmente claro quando saí na carona de uma canoa a remo para acompanhar os banhos matinais dos fiéis e ver a cidade de outro ângulo. Logo na saída, em um remanso, próximo a um porco inchado, boiava também um corpo de cabeça para baixo. Mais tarde eu soube que as pessoas consideradas indigentes, ou que ninguém tem dinheiro para pagar a cerimônia fúnebre, simplesmente são arremessadas no rio. Logo mais adiante, um outro corpo, desta vez na beira do rio, onde um sadhu comia algo próximo ao corpo. Passando mais perto, percebemos que o sadhu comia pedaços da coxa daquele corpo. Esses sadhus são conhecidos como aghoris. Eles habitam campos de cremação e desrespeitam todos os tabus, sejam religiosos ou sociais. Além de comerem carne humana, bebem em cabaças de crânio humano. Fazem de suas vidas um constante desafio à morte, como participar de rituais com venenos ou cessar a respiração. (...)