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Em março de 2004 parti para a minha primeira grande viagem: durante nove meses percorri 60 mil quilômetros por 13 países, da Europa ao Extremo Oriente. Tão logo retornei, organizei meus diários de viagem e mergulhei em outra aventura, a de escrever meu primeiro livro. Assim nasceu Nos Confins do Oriente que, para minha surpresa, em pouco tempo chegou à segunda reimpressão da segunda edição. Mesmo com a euforia do lançamento do livro e, na seqüência, das maratonas de lançamentos, meus pensamentos estavam em outro lugar: precisava viajar novamente. 

Parti de Jaraguá do Sul em novembro de 2005, fiz escala em São Paulo e de lá fui para Milão, na Itália. Após dois dias na casa de um amigo cheguei a Istambul, na Turquia, de onde segui de trem, camelo, carona e bicicleta somente carregando minha mochila, para conhecer parte do Oriente Médio e o norte do continente africano. Em todos os momentos fui fiel à proposta de viver com e como os povos desses lugares: beduínos, árabes, tuaregues, mouros, berberes, núbios e fenícios, entre outros.

Estudar as culturas e quebrar preconceitos foram os principais objetivos da minha empreitada. Se perguntarmos a um leigo o que lhe vem à cabeça quando ouve a palavra Oriente Médio, as respostas serão imediatas: “homens-bomba”, “burca” e “petróleo”. Mas o Oriente médio tem 7.000 anos de história e as três grandes religiões monoteístas começaram lá: judaísmo, cristianismo e islamismo. E se também perguntarmos quais as imagens mentais quando se ouve a palavra África, as respostas serão: “berço da humanidade”, “grandes animais”, “miséria”, “nativos”. Como pode um continente estar associado a características tão diferentes? 
 
A África não é apenas um lugar, mas sim um milhão de lugares e proporciona paisagens mais diferentes do que em qualquer outro continente. Pude sentir as tristezas e alegrias de pessoas que têm como companhia um mar de areia, vivendo em meio à escassez do imponente deserto do Saara. A falta de liberdade de expressão é visível em todos os países do roteiro. Em alguns, as armas automáticas, seja nas mãos dos seguidores dos ditadores que governam ou nas mãos de milícias rebeldes, fazem parte do cotidiano das crianças. Na África, uma pergunta é constante: “Será que as doenças, as guerrilhas e a miséria que assolam a população ficarão para sempre condenando o continente?”
 
Em muitas comunidades pobres da África do Norte e Oriente Médio praticamente não existe criminalidade, porque o Islã oferece uma âncora social de educação e doutrinamento. Onde o Islã não exerce domínio, as pessoas entram na vida do crime: os homens furtam e as moças tornam-se prostitutas. No ocidente, nunca fomos capazes de lidar com o Islã, nossas idéias sobre essa religião têm sido desdenhosas e arrogantes. Os muçulmanos devem aceitar a sociedade ocidental e o sucesso ocidental porque são fatos da vida; mas os ocidentais também têm que aprender que dividem o planeta não com inferiores, mas com iguais.