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Tempos atrás passei por Amaraji, cidade da zona canavieira do Nordeste, no interior do estado de Pernambuco. Existe lá um subúrbio, formado por quatro ruas de terra e muita poeira, cheio de casas tão minúsculas que parecem representações de um mundo compactado. As casas têm portas de 1,60 metro – quando a medida universal é de 2,10 metros. No centro da cidade, velhinhos em miniatura se aboletam facilmente à sombra de uma árvore da praça. Um deles, certamente com menos de 1,50 metro, fica longos minutos estudando um balcão de bar, até tomar coragem para pedir um café. Aproxima-se do copo devagar, controlando a tremedeira, e despeja ali todo o açúcar a que tem direito – pois já é quase hora do almoço. Café ralo e bem doce: geralmente esta é a primeira refeição dos que saem de casa de madrugada para trabalhar. Estão habituados à rotina desde meninos. Caminham uma ou duas horas até o canavial, facão em punho, para uma jornada que é remunerada de acordo com o peso da cana que conseguem cortar.Nessa região eles podem ser encontrados em qualquer fazenda.

São conhecidos como homens gabiru, em alusão aos ratos que vivem nos depósitos de lixo das metrópoles brasileiras. Mas essa comparação, além de pejorativa, é incorreta: os ratos dos lixões são assustadoramente grandes, enquanto eles são antes de tudo homens miudos, que não passam de 1,50 metro. Poderiam ser chamados de pigmeus brasileiros – se não tivessem uma diferença importante em relação a esses africanos de baixa estatura. A diferença de não serem pequenos por herança genética, mas por causa da fome. É uma fome ancestral, transmitida de geração a geração, e que os achatou na mesma medida em que os tornou menos exigentes para sobreviver. O corpo dos gabirus, de estranha mutação, às vezes mostra braços e pernas atrofiados e a cabeça, de tão grande, destoa de todo o resto. A expectativa de vida dos nanicos é tão curta quanto a sua altura: 50 anos, em média.

Na casa de Maria do Carmo, o marido, preso àquela função desde os tempos de seus pais, prepara a terra para a cana. Tem a mesma altura do boi que o rodeia no arado. Os filhos são numerosos, e nem todos se tornam nanicos, mas se tudo der certo, como diz a mãe, também vão cortar cana quando crescerem. “Sempre fui assim fofinha”, fala Maria, que diz não saber ao certo sua idade. Não tem mais que 1,40 metro e também não desconfia que é nanica. Tanto Maria quanto seu marido se perdem nas falas. Suas frases são cortadas e confusas, embaralhadas pela memória certamente atrofiada. Generosos, contemplam os viajantes com a “fé em Padinho Ciço, que ele lhe guie” – se referindo ao Padre Cícero, dividindo a única coisa que realmente possuem de sobra.

 

(24-10-2008)