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No início do século 18, a riqueza das Minas de Goiazes atraiu a atenção de garimpeiros para o estado de Goiás, impulsionando o povoamento da região. Junto com os garimpeiros, milhares de escravos negros também foram para aquelas paragens. Durante décadas, os centros de mineração prosperaram, retirando preciosidades das entranhas dessa terra. Entre 1796 e 1807, a cidade de Cavalcante, no extremo norte do estado, abrigava uma fundição de ouro, além de grande parte da mão-de-obra das minas. Após esse período, os impostos aumentaram e a manutenção da população escrava ficou mais difícil. Para driblar o governo e não pagar as taxas, os mineradores passaram a esconder o número certo de escravos: ao mesmo tempo, o movimento de quilombos ganhou força e se espalhou pelo país. Os negros abandonaram as minas e se refugiaram nas serras e nos vales, fundando quilombos. Os escravos Kalunga ocuparam a região, onde estão até hoje. Esses quilombos foram somente descobertos no final dos anos de 1970. Quando encontrados, não havia jeito de acreditarem que a escravatura estava abolida. Foram quase 200 anos de isolamento – os últimos quilombos a serem descobertos no Brasil.

Chegar até aos Kalunga foi uma aventura. Primeiro porque, em Goiás, pouquíssimos sabiam da sua existência. Segundo, encontrar uma carona até esses povoados. Foram horas na beira de um poeirão, até que o primeiro automóvel passasse e desse carona. Mesmo com o recente reconhecimento de suas terras por parte do governo Lula, os Kalunga fazem questão de viver como seus antepassados. São casas em adobe ou pau-a-pique. No dia-a-dia, o povo Kalunga dedica-se à plantação de mandioca, arroz, fumo, milho e, às vezes, feijão. Cria gado e aves, pratica a caça. Mas a fabricação de farinha – que envolve toda a família, numa espécie de ritual com celebrações e danças –, é a atividade produtiva mais importante, base principal do seu sustento.

Banana seca ao sol também não pode faltar. As próprias vestimentas provêm do algodão plantado por eles. Além do porte físico, tanto dos homens quanto das mulheres, que quase chegam a dois metros de altura, uma característica única dos Kalunga é a predominância da cor dos seus olhos: azuis. Alguns, num azul intenso que mais se parece um oceano ao sol.

Na perspectiva do mundo moderno, os Kalunga assemelham-se a uma comunidade parada no tempo, um exemplo de atraso e necessidade de progresso. No entanto, é justamente esse suposto atraso a prova concreta do preço pago pelos descendentes daqueles que buscaram no isolamento o único meio de conquistar a própria liberdade.

(16-1-2009)