Sáb, 12 de Junho de 2010 14:00 | Author: Charles Zimmermann | E-mail
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Notícias do Pedal 11 (Nepal)
Onde estou: Kathmandu no Nepal
Trilha sonora: - Pink Floyd: Learning to Fly - Bob Dylan: Hurricane - Rolling Stones: Jumpin Jack Flash
Depois de 10.000 km completados, no Nepal não teve muitas pedaladas e sim, caminhadas. Aqui, dessa vez consegui superar minha marca em ultrapassar os 6.000 metros. Foi em duas oportunidades, no topo de picos próximos ao circuito Anapurna. O circuito Anapurna por suas belezas naturais e por seus diferentes povos, é o mais conhecido entre os caminhantes que vem ao Nepal em busca de montanhas. 6.000 metros de altura no Nepal é pico. Montanha é algo para mais de 8.000 metros - ainda chego lá! Não sei se fiz esforço físico parecido durante o parto que nasci. Não sei ao certo o que me leva, o que me atrai nas montanhas, nas alturas. Creio que se fosse Hindu - onde acreditam em reencarnação, deveria ter sido cabrito na vida passada. Enquanto tenho energia, meus pés não querem ficar parados no mesmo lugar. Como o mundo é grande, a última coisa que quero é me proteger dos riscos da vida.
Pelos caminhos as vilas tibetanas formadas por casas que parecem bunkers de pedra com madeira formando a estrutura e pequeninas janelas iguais as dos soldados. O suficiente para observar o que acontece lá fora. São todas juntas - se deve ao período das neves quando não há como abrir a porta. Sendo assim a comunicação com o vizinho passa a ser pelo teto. Nas trilhas os caminhantes colocam pequenas pedras, uma sobre a outra para saudar os espíritos das montanhas - não faço diferente. De um lado paredões de rocha aos poucos vão ganhando volume, do outro lado sempre precipícios nunca inferiores a 100 metros de altura que vão parar lá embaixo. Normalmente num rio de águas leitosas e furiosas. Pedras de diferentes tamanhos deslizando a toda hora, tudo parece muito frágil, porque uma pedra mantém a outra. Qualquer movimento ou até mesmo o vento forte compromete o delicado equilíbrio. Alem das pedras, a cada "virada de esquina" cascatas que parecem cortes nas superfícies rochosas. Olho a vista fantástica, que por muitas vezes dói o pescoço em observar a altura das montanhas, quase na vertical. Sempre imaginava: quanto mais alto, mais belo. A sombra também aos poucos vai ficando escassa, tão necessária que às vezes seria como se fosso uma partícula de água no deserto.
A medida que se ascende, minhas pernas se tornam mais pesadas. A mochila parece uma carga de cimento que carrego. As botas parecem pedras - acima dos 1500 metros se perde 1% da capacidade física a cada 100 metros. Dormir acima dos 4000 metros parece que alguém esta roubando seu ar. Respiro e pouco oxigênio vem. Sabendo que sempre nessas alturas se corre contra do relógio- cada dia que passa sempre é o mais puxado, mais alto se caminha -, com a falta de ar vem o nervosismo e o sono se vai. Aumentado com a garganta seca e o nariz congestionado com o sangue que se transformou em catarro seco.
Minhas roupas de dormir mais parecem vestimentas da série Jornada nas Estrelas. Sair para fazer xixi e terrível. Agora imagine fazer coco sem papel higiênico, tento que me limpar a moda nepalesa, com a canequinha de água quase que um gelo.
Minha aparência nos dias de altitude era simplesmente lamentável: o cabelo parecia uma proteção que usava da maneira que a poeira o ressecou. Os lábios rachados, os olhos vermelhos, a barba parecia uma esponja. Poderia olhar para mim mesmo e por meio de um beliscão, dizer: sou eu...
Meus próximos passos: No Himalaia ainda continuo por uns 15 dias. Pretendo caminhar numa região já pertencente a Índia chamada Sikkim. De lá, sigo em direção ao centro, rumando ao sul da Índia. Dai a bicicleta volta a entrar em ação!