Nos Confins do Oriente: China

Acrescentam eles, “que em muitos lugares da região tibetana, o nosso povo é forçado a trabalhar para o governo produzindo artigos baratos que são exportados a países do primeiro mundo”. Denúncias de trabalho forçado no Tibet também estão no site da anistia internacional.
Quando perguntei a respeito do Dalai Lama, eles responderam “na China quem se referir a esse nome está morto”.
Rumando para o sul, em direção a província de Yunnan, tive que pedir carona. O único ônibus que passou naquele dia não podia levar estrangeiros. Nesse momento encontro um israelense e um inglês que estavam seguindo na mesma direção. Para facilitar nossa jornada, o inglês falava algumas palavras em mandarim. Quase uma hora de espera e o segundo carro que passa, um mini-furgão Kia nos dá carona. Seguimos amontoados entre sacas de arroz, e o motorista, um chinês han, seguia pela estrada montanhosa a toda a velocidade sob uma fina nevasca.
A imprudência dos motoristas chineses me assustava, eles andam sempre impacientes. Cartazes com acidentes, mostrando muita violência e corpos mutilados são mostrados em lugares de maior circulação de pessoas e todos observam essas cenas. A violência no trânsito chinês é tamanha que tendo somente 1,9% dos veículos que circulam no mundo, eles somam 15% dos acidentes do trânsito global.
Após cinco horas de viagem chegamos a Xiangcheng, uma pequena cidade que serviria de entreposto (o israelense e o inglês se foram, aproveitando um ônibus local). A arquitetura tibetana continua predominando e em meio ao vale de plantação de trigo, já há interferências dos chineses do leste, como construções de novas escolas. No alto da cidade, um monastério, rico em detalhes, pintado em vermelho e amarelo, todo em madeira. Neste lugar vivem aproximadamente 60 monges. Antes da revolução cultural, mais de 400 monges estavam hospedados ali diz um monge local. Como manda a tradição tibetana, tomamos um chá de manteiga e comemos queijo de Iaque em forma de círculo acompanhados de mais vinte monges. A conversa é sempre limitada, mas os olhos e expressões falam muito nessas horas.
Defronte a hospedagem, um restaurante onde a família dormia no próprio recinto, como em muitos lugares. Pedi uma sopa de cogumelos que pareciam frescos e arroz. O fogão ficava junto as mesas, fazendo com que boa parte da fumaça viesse sobre mim. O combustível eram os tijolos pretos: carvão mineral, presente em todos os cantos da China. O uso de carvão mineral para o fogo já havia chamado a atenção de Marco Pólo por volta do ano de 1300.
A liberação de dióxido de enxofre causada pelo carvão faz aproximadamente 700 mil vidas todos os anos. A maioria na área rural e principalmente mulheres e crianças, que respiraram essas toxinas durante horas todos os dias. (atualmente 75% da energia do país depende do carvão mineral).
Daqui por diante e quase na província de Yunnan, a estrada era só descida. O microônibus com bancos em madeira, seguia montanha abaixo e parando em todas as tocas em que saia um para a estrada, fazendo as pessoas disputar lugar com sacas de grãos, pás, enxadas, bezerros e cães. As encostas eram repletas de plantações de pinus. De vez enquando aparecia a placa do WWF (uma ong internacional de proteção ambiental) na beira da estrada indicando parque florestal, mas eu só via pinus plantados. Raramente algum pássaro aparecia. Realmente o provérbio chinês “se mexeu ou tem quatro pernas, e que não seja mesa, é comida” é uma realidade.
Como o vento lá fora era frio e raramente abriam as janelas, eu tragava as nuvens de fumaça de cigarro junto com os chineses. Quando não cuspiam no chão, abriam rapidamente a janela. Na minha frente viajava uma senhora que cuspia a todo o momento. De vez em quando, eu via o catarro passando pelo lado de fora, mas teve uma vez que o vento foi um pouco mais forte e o catarro veio para dentro, parando no meu peito e ela com certeza nem se deu conta disso. (...)



