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Dois livros para 2012 e a viagem não pode parar...
- Fim de outubro: o vôo que me trouxe de volta tocou no solo de Curitiba era quase meia noite. Deixei esta mesma cidade 747 dias atrás, pedalei por 35 países e cinco continentes. Era tarde na noite estava com fome, nenhum lugar aberto para matar a minha maior saudade estomacal: um prato com arroz, feijão preto, batata frita, ovo frito e bife. Na viagem comia em restaurantes baratos; daqui e de lá de fora não era de restaurantes caros que tinha saudades.
Nas primeiras semanas não sabia muito bem explicar aos outros sobre minha viagem. Seria difícil exagerar a felicidade que senti naqueles 747 dias. Achava difícil explicar as pessoas como eu realmente me sentia; depois de oito anos nessa vida de “rodante” e agora realizando o maior dos sonhos: pedalar 32 mil quilômetros. Mas por que essas aventuras todas¿ Não tenho respostas.
Mas antes de tudo, ainda na fase arrumar as gavetas, os armários, ou desarrumá-los em busca disso, daquilo, conta pra pagar, conta pra receber, precisava pensar e realizar as coisas simples da vida – ficando perto dos amigos e família, dormir na própria cama, não tendo que empacotar as coisas todos os dias, chuveiro quente, água potável, pedalar a bicicleta sem alforjes – sem o peso da “casa ambulante”, e claro comer arroz, feijão, ovo frito, batata frita e bife.
- Fim de novembro: concentrei-me para o inicio de um novo livro. Livro para ser lançado em abril, vai relatar a relação bicicleta e viajante. Ou seja, que é possível conhecer o mundo numa bicicleta, e definitivamente descobrindo que ela serve para ir além da padaria.
- Fim de dezembro: Trabalhar num novo livro consiste também em ler muito. Estou lendo como se meu cérebro estivesse pegando fogo, como se minha sobrevivência estivesse em jogo. Uma obra leva a outra, um pensamento leva a outro. Procuro conexões entre esses livros.
Para o inicio do segundo semestre, está programado um livro de fotografias. Esse livro-projeto está na ultima fase de aprovação via Lei Rouanet, que é lei de incentivo à cultura do Governo Federal (PRONAC) .
Vez ou outra deito sobre as milhares de fotografias tiradas desta e das viagens anteriores, os mapas, os livros, os livros guias, os diários, os passaportes repletos de carimbos, tudo flui na memória como as águas de um rio. Não estava completamente convicto quando parti em 2009 que poderia conhecer o mundo de bicicleta. Via outros ciclistas, acompanha relatos, mas não imaginava que Eu era capaz de realizar algo parecido. Pelas “roubadas”, contratempos, obstáculos, e outras dificuldades que enfrentei, passei a admirar ainda mais pessoas que já fizeram o que fiz.
Eu nunca havia experimentado um tipo de solidão como nessa viagem - uma solidão nunca se sentindo solitário. Mesmo em lugares repletos de pessoas geralmente me sentia sozinho. E nesses lugares povoados repletos, num estranho ninho esses eram os tempos de maior reflexão da viagem até então percorrida. Quase nunca posso dispor da companhia de meus amigos. Se estou triste e quero ir a um bar conversar, não posso – estou longe. Outro exemplo: eu gosto de livros, mas, obviamente não posso carregar mais que dois ou três. Então, peguei o “mau hábito” de procurar sempre uma livraria, em qualquer canto do planeta, sempre há uma livraria. Nessa semana deparei por acaso com estas palavras em uma das cartas de Van Gogh destinada ao seu irmão: “Como todo mundo, sinto necessidade de família e de amizade, afeição e relações amistosas. Não sou feito de pedra ou de ferro”.
Eu gostaria de um dia retornar para todos esses lugares. Ver como a vida mudou e visitar algumas das pessoas que conheci. Dos lugares guardados na memória, das viagens anteriores, em que retornei, para uma parte as coisas mudaram para melhor. Para outra, as coisas mudaram para pior: o fanatismo religioso nos países do Médio Oriente, o ódio entre muçulmanos e hindus na Índia. Os conflitos étnicos pelos recursos naturais na Indonésia. O desrespeito às minorias étnicas nos países da Indochina (Laos, Vietnã, Camboja), no Leste europeu. O mesmo planeta que se unifica pelos mercados é aquele que vê multiplicar-se os micronacionalismos separatistas.

Viajar me sinto um alcoólatra, que não consegue trocar os excessos de uísque que se vão pela semana toda por uma cervejinha nos sábados a noite. As pedaladas mundo afora continuarão e facilmente vão ultrapassar os 1000 dias planejados de início.